Querido Papai Noel,
Em primeiro lugar, gostaria de pedir desculpas por quase 30 anos sem mandar notícias. É que andei meio ocupada (ou seria mais apropriado, desocupada?) esse tempo todo, acreditando em outras coisas, em outras pessoas e até em mim mesma. Pra não perder mais tempo, resolvi escrever para o senhor já agora, bem no iniciozinho de dezembro. Afinal, segundo a decoração dos shoppings e os comerciais na televisão, o Natal está aí e logo, logo os perus estarão apitando no forno, a Simone estará cantando nas rádios e todo mundo vai começar a se amar de uma hora para a outra. Daqui a pouco alguém entra na minha sala com papeizinhos de amigo-secreto, o SBT reprisa pela décima vez Esqueceram de Mim e a Globo começa a anunciar o Especial de Natal do Roberto Carlos. É, mais uma vez entramos na reta final de um ano para encarar as curvas de outro.
Sabe, meu velho, esse ano foi bem difícil pra mim. Ainda bem que voou. Aliás, voou como todos voam. Faz anos que ouço isso. Deve ser a frase mais dita no mundo, depois da clássica “será que vai chover” dentro de elevadores ou “no nosso aniversário quem ganha o presente é você” em propaganda de supermercado: o ano voou. Pois agora, olhando pra trás, parece mesmo que passou rápido. Mas quando ainda estávamos em janeiro, o tal ano se arrastava. Olho lá pro dia primeiro do ano e lembro que ele já começou com uma perda pra mim. Uma perda que, agora, não significa nada, porque na verdade ela nunca foi um ganho e só eu não via isso. Em 2006, perdi uma amiga. Não, não, ela não morreu. Está bem viva, graças a Deus. Mas não vive mais na minha vida. Aquela perda acabou sendo um ganho pra mim, porque comecei a aprender a dizer não. A não pedir desculpas quando sei que a culpa não foi minha. Em 2006, perdi meu carro. Bem material, eu sei. Mas ele era umas das coisas mais concretas dentre minhas conquistas emocionais. Sem carro, mas com saúde pra andar a pé, de ônibus, de táxi, de carona, de cabeça erguida. Com saúde pra trabalhar, porque mesmo quando perdi um emprego não perdi o amor que tenho pelo meu trabalho. Perdi dinheiro, muito dinheiro. Perdi noites de sono. Perdi de me divertir porque achava que ganhava mais ficando em casa. Mas ganhei outros amigos que nem sabia que tinha. Ganhei coragem pra enfrentar mais uma subida da montanha-russa. Ganhei disposição pra gritar e levantar os braços na descida. Ganhei o apoio da minha família e o sorriso cada vez mais desdentado do meu filho. Perdi a paciência, o orgulho, a calma, a noção, a razão, o bom senso. Mas perdi de mim mesma quando quis me derrotar. No final, mesmo com alguns fracassos, eu ganhei.
Já me disseram que não sei pedir. E não sei mesmo, nunca soube. Posso estar dura, dura. Não sei pedir dinheiro para o meu pai, que vive oferecendo. Posso estar carente, mas não sei pedir um abraço. Por estar precisando de você, mas não sei dizer que é de você que preciso.
Preciso aprender. Tenho muito a ganhar com isso. Por isso, Papai Noel, anos e anos depois, volto a te pedir algumas coisas. O senhor já me deu o Genius da Estrela e todas as bonecas mais lindas do mundo. Já deu outro avião pro meu irmão, logo depois que pisei em cima do dele. Já deu um Playstation pro João e, assim, me deu um sorriso por vê-lo sempre feliz quando chega em casa da escola e vai correndo jogar. Agradeço por tudo, mas o que quero, dessa vez, não se compra em loja nem se põe debaixo da árvore.
Não quero ganhar nada. Quero perder. Porque só perdendo certas coisas vou começar a realmente ganhar. Quero perder o medo de ser feliz. Quero perder a vergonha de amar. Quero perder a noção do tempo quando estiver amando. Quero perder o chão quando estiver beijando. Quero perder a hora, os minutos, os segundos e ganhar uma vida inteira. Quero perder a razão pra sentir a emoção.
Agora, meu coração dói. Dói doído mesmo, uma sensação chata de ter perdido a chance de ficar calada. Um arrependimento por ter sido honesta com os meus sentimentos e sofrimentos. O problema é que, assim como no Natal, dificilmente alguém dá sem esperar receber. Ninguém gosta de não encontrar ao pé da árvore pelo menos um pacotinho com o seu nome escrito. Dessa vez, eu juro. Eu não queria um presente. Só um abraço. Só uma palavra. Só um gesto. Pra eu não achar que mais uma vez pus tudo a perder.
Era isso, Papai Noel. Desculpe se não fui clara o suficiente. Se me perdi nas palavras. Vê aí o que senhor pode fazer por mim. Prometo não encher mais o saco, nem fazer trocadilhos idiotas como esse. E prometo não roubar no sorteio do amigo-secreto fingindo que tirei meu nome só pra poder tirar outro papel.
Feliz Natal adiantado pra todos.